Segundo o Eurobarómetro de 2026, 35% das PME em Portugal dizem ter "muita dificuldade" em recrutar pessoas com as competências de que precisam. É a 3.ª taxa mais alta da União Europeia, num inquérito que ouviu 500 empresas portuguesas. O mesmo estudo mostra que 71% das empresas portuguesas nunca tentaram contratar fora do país.
Este problema não surge do nada. Segundo o INE, a taxa de desemprego média foi de 6,0% em 2025, a mais baixa desde 2011, e desceu para 5,6% em dezembro. Num mercado de trabalho assim, as boas pessoas têm escolha. E quem tem escolha não fica numa empresa só porque lhe ofereceram um contrato.
Nos meus anos de coaching, vejo muitas vezes empresários que tratam o recrutamento como uma urgência: alguém sai, abre-se um anúncio, contrata-se quem aparecer primeiro. Depois, seis meses mais tarde, o ciclo repete-se. Recrutar e reter é um sistema, e como qualquer sistema pode ser desenhado, medido e melhorado.
O custo real de uma má contratação
Quando uma pessoa sai, a empresa perde mais do que um salário. Perde o tempo de quem recrutou, o tempo de quem formou, a produtividade das semanas de adaptação e, muitas vezes, a relação com os clientes que essa pessoa acompanhava. Numa PME, onde cada pessoa tem um peso grande, uma saída pode atrasar um trimestre inteiro.
A isto junta-se a pressão salarial. O salário mínimo passou de 870 euros em 2025 para 920 euros em 2026, segundo a PORDATA. Para muitas PME, competir apenas pelo salário não é sustentável. É preciso competir também pela clareza, pela organização e pelas perspetivas de crescimento.
Recrutar com sistema
Antes de publicar um anúncio, vale a pena responder a cinco perguntas por escrito:
- Que resultados concretos esta pessoa tem de entregar nos primeiros 90 dias?
- Que indicadores vão medir o seu desempenho?
- Que competências são indispensáveis, e quais se podem ensinar?
- Que valores e comportamentos esperamos de quem trabalha connosco?
- Porque é que uma boa pessoa haveria de escolher a nossa empresa e não outra?
A última pergunta é a que mais empresários deixam em branco. E é a mais importante num mercado com o desemprego em mínimos de 2011. Se não sabe responder, o candidato também não vai saber.
Alargar o funil
Recrutar é, em muitos aspetos, semelhante a vender. Há um funil: número de candidatos, taxa de candidatos que passam a entrevista, taxa de propostas aceites. Se o funil tem pouca entrada, nenhuma entrevista bem feita resolve o problema.
Algumas formas de alargar a entrada:
- Pedir indicações à equipa atual, com um processo claro e reconhecimento para quem indica.
- Criar relações com escolas profissionais e universidades da região.
- Considerar perfis com menos experiência, mas com a atitude certa, e investir na formação.
- Avaliar o recrutamento fora do país para funções específicas. Os 71% que nunca tentaram estão, pelo menos, a deixar uma opção por testar.
Reter é mais barato do que recrutar
A retenção começa no primeiro dia. Uma pessoa que entra numa empresa sem funções definidas, sem objetivos claros e sem ninguém que a acompanhe começa logo a avaliar se fez a escolha certa.
Um plano de integração simples faz uma diferença enorme:
- Semana 1: apresentação da empresa, dos clientes principais e das pessoas com quem vai trabalhar. Entrega de uma descrição de funções por escrito.
- Primeiro mês: objetivos de 30 dias, um responsável de acompanhamento e uma reunião semanal de 30 minutos.
- Primeiros 90 dias: revisão formal de resultados, com base nos indicadores definidos antes da contratação.
Depois da integração, o que mais retém as pessoas, na minha experiência, não é um benefício específico. É saber o que se espera delas, ver o resultado do seu trabalho e perceber que há um caminho de crescimento. Isto exige liderança com reuniões regulares, indicadores partilhados e conversas honestas sobre desempenho.
A equipa como alavanca do negócio
Nos 6 passos do sucesso empresarial da metodologia ActionCOACH (Mestria, Nicho, Alavancagem, Equipa, Sinergia e Resultados), a Equipa vem depois da Alavancagem. A ordem não é por acaso. Antes de contratar, a empresa precisa de ter sistemas e processos que permitam a uma pessoa nova ser produtiva depressa. Sem isso, cada contratação depende de alguém que a ensine, e esse alguém é quase sempre o dono.
Há também uma ligação direta à produtividade. Segundo a PORDATA, em Portugal trabalha-se em média 39,7 horas por semana (2025), o 5.º valor mais alto da UE. Uma equipa sobrecarregada, sem processos, perde pessoas mais depressa. Organizar o trabalho é, em si mesmo, uma estratégia de retenção.
A ação desta semana
Esta semana, marque 20 minutos com cada pessoa da sua equipa e faça-lhes duas perguntas: o que a faria ficar na empresa mais três anos, e o que a poderia levar a sair. Registe as respostas sem discutir. Ao fim da semana, terá uma lista de prioridades de retenção mais fiável do que qualquer estudo.
Num mercado em que 35% das PME têm muita dificuldade em recrutar, a vantagem está do lado de quem constrói uma empresa onde as boas pessoas querem ficar. Se quiser trabalhar o recrutamento e a retenção com método, em Coaching 1:1 ou no Workshop: Clareza e Alinhamento com a sua equipa, a ActionCOACH Porto está disponível para uma conversa.